terça-feira, 7 de junho de 2011

Fidelidade ao Asè!

 Quero aproveitar esse espaço, para falar um pouco sobre a ética, valores e  fidelidade dentro dos terreiros de Candomblé. Hoje, a cada dia, vemos de forma mais acentuada o êxodo de filhos de um Asè para outro, mas porque isso?
Num passado não tão distante, à exceção da necessidade imediata da iniciação, muitas vezes por motivos de saúde ou determinação do próprio Orisa, aquele que desejava adentrar para um Asè, ficava anos como Abiyan (noviço, ainda não iniciado nos mistérios do Candomblé). Ao longo desse período, esse abiyan, conhecia mais o seu sacerdote, os dogmas, qualidades e falhas da casa (sim, falhas, pois perfeitos são os Deuses). Ainda que não iniciada, essa pessoa tinha um conhecimento bastante apurado sobre a vida sócio-religiosa dentro do seu Egbe Òrìsà (comunidade do Orisa).
Nessa jornada, o abiyan de forma natural aprendia as danças, os cânticos, as palavras em língua yoruba mais usuais, resumidamente, aprendia ser um Omo Orisa (filho do Orixá). Quando ele fosse iniciado, ele já conhecia bem a dinâmica do seu egbe, a personalidade, qualidades e defeitos do seu sacerdote. Essa pessoa, tomava suas obrigações de 1, 3 e 7 com a mesma pessoa que lhe iniciou, permanecendo muitas vezes no seu egbe, mesmo pós morte do seu sacerdote.
Na nossa religião, a crença dos Orisas, quando uma pessoa é iniciada, ela passa por inúmeros ritos, dentre eles, o juramento. Não um juramento como o dos católicos, mas algo que o liga ainda mais a sua casa, ao seu sacerdote e, principalmente ao seu Orisa. Hoje, por vezes, me pego pensando na credulidade dos filhos de santo acerca desses nossos rituais. Sendo que, vemos muitos serem iniciados em uma casa, tomarem obrigação de 3 anos em outra e a de 7 em outra, mas porque?
Obviamente, como já disse acima, ninguém é perfeito, perfeito são os Orisas e, até mesmo eles erraram em vida, talvez seja essa uma das razões para que eles sejam tão próximos de nós. O que digo com isso, é que, como num espaço tão curto de tempo, uma pessoa não consegue adaptar-se a nenhuma casa? A nenhum sacerdote? São as casas e os sacerdotes que estão errados? Ou as pessoas que são inadaptáveis?
Como sacerdote que sou, observo muitos saírem de uma casa, na busca de respaldo em outra. Há algumas coisas que noto bastante.
è Muitos iniciam-se em uma casa e até se dão bem lá, no entanto, querem pertencer ao “Ase da Moda”. Aqui em SP mesmo, houve uma época que todo mundo era do Gantois, sem jamais terem ido à Bahia, depois todos são do Ase Osumare. Nessa busca de seguir a tendência, alguns Omo Orisa, trocam de Ase/Casa, como trocassem de estilo. Hoje tal Ase que eu pertencia não está mais na moda, agora vou para o outro que está mais “badalado”, o problema é que eles acham que estão entrando para aquela família, mas futuramente, por vezes, acabam descobrindo que aquela casa que eles entrarem nunca foram da “casa da moda”.
è Há ainda, uma desenfreada busca dos novos pelo sacerdócio, todos querem ser Pais e Mães. Se por ventura, o sacerdote disser que aquela determinada pessoa não tem caminho para sacerdócio, logo ela irá procurar alguém que lhe diga o contrário. Mas afinal, será que todos nasceram para serem pais ou mães? Posso afirmar que não!
Na Bahia, há ainda, casas com dezenas de egbon-mis antigas, que fizeram santo na casa e lá estão até hoje. Mas no sudeste, observo que os egbon-mi já passaram por diversas casas e diversos ase. Sem construírem dessa forma, uma identificação com nenhuma. Nesse aspecto, o que acontece com o juramento? Penso que muitos não acreditam na força que lhes toma, outros, a maioria na verdade mentem que são tomados por alguma força e, dessa forma, o juramento em verdade não tem valor nenhum....
Hoje, ninguém quer ser Abiyan, ninguém quer ser Iyawo. Quantas pessoas eu fui na saída há 10/15 anos no máximo e hoje escuto os mesmos dizerem que tem trina anos de santo. Quantas pessoas simplesmente não aparecem iniciadas e já antigas? Quando indagadas sobre sua raiz.......Todos já se foram, todos os parentes já morreram, sendo ele o filho derradeiro....
Dificilmente hoje, vemos alguém que sabe limpar uma galinha, ou preparar o ase da mesma, mas falam com tanta propriedade de Iyami e Abiku que até dá medo, afinal todos aprendem Candomblé pela internet. Eu, particularmente, não sou contra a internet, muito pelo contrário, no entanto, essa rede deve ser usada com parcimônia e jamais, como ferramenta de aprendizagem, para isso estão lá, fincadas na terra, a casas de candomblé.
Antigamente, somente ao olhar sabíamos quem era uma abiyan, quem era um iyawo. Hoje? Hoje, vejo iyawos com enormes bolas de plástico no pescoço, dançando no salão mais que o próprio Orisa. Mas afinal, o que está acontecendo?
Todos nós, candomblecistas devemos parar e refletir sobre o que está acontecendo com a nossa religião. Hoje não mais o respeito, não há mais a fidelidade. Não generalizo, pois há poucos, mas ainda há. Mas a grande maioria não estão na religião pelo Orisa. Muitos, desejam o Status no candomblé, pois não conseguem fora dele, então “pintam” e, muitas vezes são rconhecidos....
Mas onde está o Orisa nesse momento? Digo, olhando atentamente a tudo isso. Muitos me perguntam mais o Orisa não fala nada? Essa é a grande preocupação, o Orisa não é mudo. Se ele se calou, tenham certeza, contente ele não está.
Babalorisa José Carlos de Ibualamo

14 comentários:

  1. BENÇA PAI JOSE CARLOS

    CONCORDO COM O SENHOR, AMO OS ORISAS AINDA BEM KE EXISTE PESSOA COMO O SENHOR,QUE NOS ESCLARECE COMO VOSSA SABEDORIA
    QUE BABA ODE LHE PROPORCIONE UMA VIDA LONGA COM MUITA SAUDE.FELICIDADES E MUITAS ALRGRIAS


    UM GRANDE ABRAÇO DA DOFONA TY YEMONJA

    OJU ODARA

    ASE OOOOOOOOOO

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  2. bença pai jose carlos ..........é mais isso está acontecendo em muito lugares mais são pessoas que não sabe o valor de um orixá

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  3. Hj eu vejo tudo isto e mais um pouco em nosso culto se o babalorisa fala alguma coisa ele que esta errado como ouvi roupa e roupa abyan de turbante na cabeça pano na cintura e as bolas grandes de plantico no pescoco. Tenho medo do que isto pode virar.

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  4. neia de ibuálámo8 de junho de 2011 21:32

    olá,baba!Gostei muito do contexto em questão! Deixei de visitar alguns candomble por isso !! muita luxurias,cada um querendo se vestir melhor q o outro, preoculpando se em presença. Só pose!!! Eles tem que saber que o mas importante alí, no momento e em destaque e somente o orixar !!! o orixar não precisa de nos ,sim nós dele!!! Eles nós olha com superioridade, ali quem e " superior absoluto e o nossos orixas!!meu colofé Olorum !! e mojúba sempre....

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  5. Motumbá ,eh isso mesmo......tem muitos hoje querendo so oba-oba.......e faz santo por fazer eles ,outros se esquecem que vinculo com pai e mae de santo não corta ........e triste ver o candomblé tomando o rumo que esta tomando.....mas tenho fé em olorun que isso vai mudar. Asé. mojuba!!!!

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  6. clodoaldo ayirá9 de junho de 2011 12:57

    parabens baba, concordo com o senhor cada turbante posto no ori, e o tamanho de sua responsabilidade na religiosa, quero ver na hora do serio se eles vão segurar a pemba, eu vou ser eternamente um yao, já passei por cada coisa que so orixa pode dizer, mais ali estava meu babalorixa me orientanto, e firme comigo...

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  7. Muito pertinente esse texto. ah casos em que a desvinculação de uma pessoa de uma determinada casa, não ocorre por conta de infidelidade, mas por outros problemas muito complexos, ou não, de serem entendidos e aceitos. mas na postagem acima, vemos q o amor para com orixá e a religiosidade estão deixadas de lado de maneira sumária, por conta da alta proclamação de pertencer à casa tal de fulano de tal. mas e o orixá, como se sente com isso? hj, estou no axé Ibualamo e espero só sair de lá, e tenho certeza disso, quando for chamado ao orun. lá, encontrei o meu esteio e da forma como o meu babalorixá conduz sua casa e ama seus filhos, a fidelidade é uma coisa mais q natural!!!

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  8. sua bençao pai e obrigado pelas suas palavras me orgulho de ser um abia no axe ibualamo e aguardo com tranguilidade o dia de minha iniçiaçao axe!!!!

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  9. Motumba ....Concordo com o senhor seu texto não diz nada além da verdade, sou yawo do Asé jagun de Baba marcelo e Ya Marcia T´Opé e me considero um previlegiado por ser muito bem conduzido ....eu vi um dia desses no orkut um mais velho comentar que se um Ossossi de antigamente se deparace com um dos dias atuais caçaria por conta de todo esse luxo....Mas quero no entanto deixar aqui meu apelo a certos babalorisas que não tem educação para com seus filhos pois isso ajuda e muito no pula pula de casa que ai esta né??? Meus respeitos e meu Motumba.

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  10. IYÁ CIDA T´OSÚN YPONDÁ

    MOTUMBA...PAI ZÉ CARLOS,REALMENTE PAI O SENHOR RELATA UMA VERDADE CONCORDO PLENAMENTE COM SUAS SABIAS PALAVRAS INFELISMENTE HOJE AS PESSOAS NÃO RESPEITÃO E NEM FAZEM QUESTÃO DA HERARQUIA DO NOSSO CULTO AOS ORISAS FAZEM QUESTÃO DE LUXO E POMPAS TIRÃO A BELEZA DE NOSSOS ORISAS QUE NOS PASSA SIMPLICIDAE E HUMILDADE,JA NÃO SE VE MAIS ORISAS NA SALA VESTIDO COMO NO COSTUME ANTIGO QUE AS VESTES [OXÓS]DE ORISA ERÃO FEITOS COM TANTO CARINHO E PRECEITOS DENTRO DAS ROSAS DE CADOMBLE ; ECETO NA SUA ROSA ,´´ILÉ ASÉ IBUALAMO`` QUE NA MINHA OPINIÃO HOJE EM S.P E A UNICA QUE CONSERVA AS TRADIÇOES E HERARQUIA DO CADOMBLE .
    BABÁ O SENHOR E UM BABALORISA DE RESPONSABILIDADE E SERIEDADE NA NOSSA RELIJIÃO TENHO ORGULHO DE PODER SER SUA AMIGA E DE PODER PIZAR TRANQUILA E FELIZ EM SEU SOLO SAGRADO ...``ILÉ ASÉ IBUALAMO ´´QUE OLORUN E TODOS ORISAS LHE ABENÇOE COM MUITA VIDA E SAUDE PARA SEMPRE PODER NOS PASSAR SEUS SABIOS INCINAMENTOS.

    SUA ABENÇÃO ..09 DE JUNHO DE 2011

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  11. OLA BENÇA A TODOS ACHEI MARAVILHOSO O TEXTO MAIS AÕ MEU VER TUDO ISSO QUE NOSSO Pai ZÉ CARLOS POSTOU É APURA VERDADE MAIS ACHOU QUE MUDANÇA DO CANDOMBLÉ NÃO É CULPA DOS DE HOJÉ SIM DOS PROPRIOS ANTIGO QUE VENDERAM O CANDOMBLÉ O CULTO MUITO DEIXARAM ETIÇÁ PELA GRANA ISSO SIM HOJÉ TODOS TEM IYAMI ,HOJÉ TODOS FAZEM PROCISSÃO ADE BANI HOJÉ TODOS FAZEM FOGUEIRA COM GULOZEMAS EM VOLTA AS VEZES AE ACHOU QUE SANGO VAI TOMA CAFÉ DA AMANHÃ RSRS MAIS A BAGUNÇA ESTA AI POR CULTA DOS QUE SE DIZEM OS MAIS VELHOS NÃO SO HOJE QUE VEJO OS DE HOJÉ OS ANTIGOS MESMO METEM PAU NO ASE DO OUTRO FALAM A SIM OLHA FALTA UM ATO NO SEU SANTO A PESSOA FICA ALI PENSADO TERMINA INDO FAZER CONSULTA AI OUTRO JA FAZ LAVAGEM CELEBRAL HOJÉ O QUE MANDA É DINHEIRO NÃO O ASÉ NÉ VERDADE .

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  12. Gostei muito do comentario. Sinto tristeza de nao falar bem sua lingua, mais entendo tudo. Kolofé Pai

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  13. SUA BENÇÃO CONCORDO E MUITO COM O QUE O SR. RELATA AQUI NESTA POSTAGEM.É MUITO CONSTRANGEDOR SAIRMOS DE NOSSAS RAIZES AQUAL FOMOS INICIADOS,DIGO POR INFELIZMENTE ISSO ACONTECEU COMIGO AO LONGO DE 17 ANOS DENTRO DE UM ASÉ AO QUAL RESPEITEI E SEMPRE ERGUI A BANDEIRA DESTA CASA,MAS INFELIZMENTE TUDO QUE MEU ZELADOR UM DIA DISSE-ME SER ERRADO OU NA LINGUAS ATUAIS MALUQUISSE ELE ACABOU POR FAZER AÍ EU DIGO AO SR. COMO FICAR NUM LUGAR ASSIM ONDE NÃO SE RESPEITA SEU MAIS,NÃO EXISTE HIERARQUIA MAS EXISTE PROMISCUIDADE FICA DIFICIL DE CONTINUAR HJ AGRADEÇO AOS BRAÇOS QUE ME AMPARARAM POIS MEU PAI EU ESTAVA COMPLETAMENTE PERDIDA SEM RUMO.
    CREIO QUE ORISA EXISTE POIS ELES MESMOS MOSTRARAM-ME O CAMINHO CERTO A SEGUIR.ASÉ!!!

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  14. E por falar em fidelidade, no domingo dia 10/07 fui arrebatado pelo candomblé da Casa Branca do Engenho Velho, arrebatada porque dizer assistir não faria jus a experiência. Em tempos onde tudo no culto é "OVER", presenciar distintas senhoras, conduzirem, entrarem em transe, dançar e conviver na mais perfeita harmonia me fez repensar muitas coisas, coisas do começo de minha vida no axé, de encantos que perdi, de amores que negligencie, de fé que vacilou, e ao olhar tudo isso me sinto saudoso e ao mesmo tempo aliviado, saudoso porque teria feito muitas coisas de forma diferente, mas feliz em fazer parte de uma axé que me remete a essa matriz, a essa bonança que só quem carrega o peso das eras consegue passar, do olhar apaixonado daquelas senhoras pelas divindades em terra, a condução lenta dos passos de quem traz consigo a sabedoria de que correr nem sempre apressa a chegada.

    Viva a Ogun. Viva ao Candomblé da Casa Branca. Viva ao Axé Ibualamo, e a todos aqueles que mantem viva essa tradição hoje e sempre.

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